Por Odir Cunha
O 97º aniversário do Santos Futebol Clube é uma data propícia para lembrar as origens desse time que encantou o mundo.
Um time que, poucos sabem, já nasceu predestinado para ser um dos maiores de todos os tempos.Segunda-feira passada, no programa Estádio 97, gostei de ouvir do amigo e grande historiador do futebol, Celso Unzelte, que escreveu comigo o livro "O Grande Jogo" lhe ensinou muitas coisas sobre o Santos pré-Pelé.
Se Celso Unzelte não conhecia, imagine, então, o jornalista e o torcedor comuns... Nada ou quase nada sabem sobre as origens do Santos.
Daí tanta informação desencontrada e tanto desrespeito com a história do time antes da chegada do Rei Pelé.Não, não vou falar do lendário ataque dos 100 gols de 1927, quando o Santos foi considerado pela imprensa da Capital, então o Rio de Janeiro, o melhor time do País.
Falarei das origens mesmo, do dia da fundação e dos bravos rapazes que estavam presentes no salão nobre do Clube Concórdia, na noite de sábado, 14 de abril de 1912.
Raimundo Marques, Argemiro de Souza e Mário Ferraz organizaram a reunião e fizeram os convites para a fundação de um "clube de futebol".
Praticantes e adeptos do novo esporte tomavam todos os lugares do salão quando a solenidade começou, às 20 horas.Nomes diversos foram sugeridos para a nova agremiação, entre eles África, Concórdia e Brasil, mas um antepassado meu, Antônio de Araújo Cunha, acabou agradando a todos ao propor que o clube tivesse o nome da cidade.
Muito bem. Até ai todos conhecem e repetem a história. O detalhe é que entre os presentes, que responderam à chamada e assinaram a ata, estavam simplesmente dois heróis da primeira conquista importante do futebol brasileiro: o Sul-americano de 1919, conquistado no Estádio das Laranjeiras, o maior do País à época.
Como a chamada foi feita por ordem alfabética, o primeiro a dizer "presente" foi Adolfo Millon Junior, ponta-direita rápido e driblador, que se destacou no Sul-americano e marcou um dos gols da vitória de 3 a 1 sobre a Argentina.
Ainda seguindo a ordem de chamada, o décimo-segundo nome anunciado foi o de Arnaldo Silveira, que viria a ser não só o ponta-esquerda titular dos primeiros cinco anos da Seleção Brasileira (de 1914 a 1919), como, por sua personalidade marcante e seu elevado senso de responsabilidade, o capitão do Brasil.
Quantos clubes por esse mundo afora tiveram a fortuna de ter, entre seus fundadores, dois jovens que seriam titulares da Seleção Nacional e conquistariam o título mais relevante do futebol de seu país?Adolfo Millon Jr. e Arnaldo Silveira foram muito importantes nos primórdios do Santos.
Ambos participaram da primeira partida jogada pelo clube e Arnaldo foi o autor do primeiro gol do time que se tornaria o de melhor artilharia do futebol.Após muitos treinos, o primeiro jogo do Santos foi disputado no dia 15 de setembro de 1912, em um campo onde hoje fica a igreja Coração de Maria. O adversário foi o Santos Athletic Club, conhecido como Clube dos Ingleses, que existe até hoje.
O Santos venceu por 3 a 2, com dois gols de Arnaldo e um de Millon. Arnaldo teve a honra de entrar para a história como o primeiro santista a balançar as redes adversárias.Atenção para a primeira equipe do Santos: Fauvel, Sidenei, Arantes, Ernani, Oscar, Mantenegro, Millon, Hugo Nilo, Naylor e Arnaldo Silveira (a informação deste primeiro jogo foi pesquisada ou pelo Guilherme Guarche, ou pelo Guilherme Nscimento.
Na dúvida, eu agradeço a ambos e os felicito por manterem viva a mais rica história de um time de futebol no universo). Além de ajudarem a consolidar o time como o melhor da cidade, Arnaldo e Millon construíram vitórias importantes contra os times da Capital.
No primeiro clássico paulista, por exemplo, jogado dia 22 de junho, um domingo à tarde, no Parque Antárctica, cada um marcou dois gols na goleada histórica de 6 a 3 sobre o Corinthians (quem quiser saber mais sobre esse confronto de alvinegros, leia o livro "O Grande Jogo", que escrevi com o jornalista e escritor Celso Unzelte).
No Sul-americano de 1919, além dos dois pontas, o Santos tinha mais um jogador convocado: o meia-direita Haroldo Domingues, que marcou um gol na goleada de 6 a 0 sobre o Chile.
Arnaldo, Millon e Haroldo fizeram do Santos o time com mais jogadores convocados para aquela primeira vitoriosa Seleção Brasileira.
De lá para cá, o futebol evoluiu, os métodos de treinamento físico e técnico se aprimoraram, a mídia transformou o esporte em uma paixão nacional, mas o Santos continuou cumprindo sua predestinação, como no princípio.
Na conquista mais importante da Seleção Brasileira - a Taça Jules Rimet, obtida com os títulos das Copas de 1958, 1962 e 1970 - adivinha que time cedeu mais jogadores para o Escrete?Noventa e sete anos já se passaram, mas a motivação e a confiança daqueles jovens que criaram o Santos Futebol Clube continua viva.
O time, cuja história se confunde com a do futebol brasileiro, prossegue rompendo seus limites.





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